terça-feira, 12 de abril de 2011

A UM PESSIMISTA



Olhas o céu e o céu, todo em atra gangrena,
Se te mostra corroendo as rútilas esferas.
Baixas à terra o olhar e a terra, em outras eras,
Plena de gozo e amor, ora é de horrores plena.

Sangra a etérea região, sangra a região terrena
E o horizonte, que as une, inda mais dilacera-as.
E as próprias linhas — louco! em que a sânie verberas,
Podres vêm ao papel, podres brotam-te à pena.

Mas, se ao céu e se à terra, e se ao horizonte e ao verso,
Asco e náusea tressuando, a podridão atrelas
E nela vês tombar e fundir-se o universo,

Sobe do chão o olhar, baixa-o das nuvens belas
E volve-o dentro em ti, pois fora o tens imerso
Na própria irradiação das tuas próprias mazelas


[Emílio de Meneses]

CAMPO SANTO



Eis-me afinal de novo entre os meus bons convivas,
Só com meus sonhos,só,com a minha saudade,
E as mortas ilusões e ilusões redivivas
De que o morto passado a alma toda me invade.

Porque se me hão de impor,fortes e decisivas,
As descrenças dos que,sem fé,sem caridade,
Sem esperança,vêm dessas alternativas
De mal fingido amor e fingida piedade?

Sinto-me preso aqui.Entre angústias me envolvo,
-Esfinge que se envolve entre os arcais da Líbia -
Mas o fatal problema entre audácias resolvo

Alma!que importa a dor que te devora?Exibe-a
Ante a morte que em seus tentáculos de polvo
Mói crânio contra crânio e tíbia contra tíbia!

Emilio de Meneses

MESMICE



Quisera eu pôr nestes quatorze versos
Um leve, fino, alegre comentário
A algum novo e notável caso diário,
Entre os casos urbanos mais diversos.

Percorro dos jornais o noticiário,
Leio artigos e tópicos dispersos,
A pedidos satânicos, perversos,
Desastres, crimes, contos-do-vigário.

Nada encontro que inspire à alegre musa
Uma nota satírica e atrevida
Que nos nervos um frêmito produza.

É sempre a mesma coisa repetida:
Luza o sol, venha a noite, o sol reluza,
Como o banal, se reproduz a vida!


Emilio de Meneses

O RIO GUERREIRO



Rota a vertente, a rocha rebentando,
Impetuoso em esguicho o campo irrora;
Regato agora, agora largo e brando,
De branca espuma a superfície enflora.

Logo torrente o crespo dorsa impando,
- Quer seja noite, quer o veja a aurora –
Légua a légua o terreno conquistando,
Vai caudaloso pelo vale em fora.

Ei-lo afinal - o forte curso findo,
Num esforço estupendo, soberano.
Fero, revolto, arroja-se rugindo

Aos loucos roncos vagalhões do Oceano.
A Pororoca o estrondo repetindo
Eternamente do combate insano!...


Emílio de Meneses

A CHEGADA



Noite de chuva tétrica e pressaga.
Da natureza ao íntimo recesso
Gritos de augúrio vão, praga por praga,
Cortando a treva e o matagal espesso.

Montes e vales, que a torrente alaga,
Venço e à alimáría o incerto passo apresso.
Da última estrela à réstia ínfima e vaga
Ínvios caminhos, trêmulo, atravesso.

Tudo me envolve em tenebroso cerco
D'alma a vida me foge, sonho a sonho,
E a esperança de vê-la quase perco.

Mas uma volta, súbito, da estrada
Surge, em auréola. o seu perfil risonho,
Ao clarão da varanda iluminada

Emílio de Meneses

VIDA NOVA



De uma vida sem fé de nebuloso inverno,
Furtei-me sacudindo o gelo da descrença.
Aquece-me outra vez este calor interno,
Esta imensa alegria, esta ventura imensa.

Sinto voltar de novo a minha antiga crença,
Creio outra vez no céu, creio outra vez no inferno,
Na vida que triunfe ou na morte que a vença
Creio no eterno bem, creio no mal eterno!

E quando enfim do corpo a alma for desgarrada
E procure entrever a região constelada
Que aos bons é concedida, esplêndida a irradiar,

Ao coro festival de um hino triunfante
Abra-se a recebê-la, olímpico e radiante
Todo o infinito céu do teu sereno olhar!...


Emílio de Meneses

MATINA



Noite! Cesse o teu ar imoto e quedo!
Quero manhã! todos os sons que vazas!
Fujam do ninho ao lépido segredo
Todas as bulhas de reflantes asas.

Sol! tu que a terra fecundando a abrasas.
Desce da aurora em raio doce e a medo,
Todas as luzes travessando o enredo
Diáfano e leve das nevoentas gazas.

Telas festivas deslumbrai-me a vista!
Cantos alegres desferi-me em roda
Em toda a luz, em todo o som que exista.

E a natureza toda em harmonia,
Iluminada a natureza toda,
Surja gloriosa no raiar do dia.

Emílio de Meneses

GOTA D’ÁGUA



Olha a paisagem que enlevado estudo!...
Olha este céu no centro! olha esta mata
E este horizonte ao lado! olha este rudo
Aspecto da montanha e da cascata!...

E o teu perfil aqui sereno e mudo!
Todo este quadro que a alma me arrebata,
Todo o infinito que nos cerca, tudo!
D'água esta gota ao mínimo retrata!...

Chega-te mais! Deixa lá fora o mundo!
Vê o firmamento sobre nós baixando;
Vê de que luz suavíssima me inundo!...

Vai teus braços, aos meus, entrelaçando,
Beija-me assim! vê deste azul no fundo,
Os nossos olhos mudos nos olhando!...


Emílio de Meneses

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Perderás de mim


VII

Perderás de mim
Todas as horas

Porque só me tomarás
A uma determinada hora.

E talvez venhas
Num instante de vazio
E insipidez.
Imagina-te o que perderás
Eu que vivi no vermelho
Porque poeta, e caminhei
A chama dos caminhos

Atravessei o sol
Toquei o muro de dentro
Dos amigos

A boca nos sentimentos

E fui tomada, ferida
De malassombros, de gozo

Morte, imagina-te.

Hilda Hilst
Da Morte. Odes Mínimas (1979)

Pertencente te carrego...


III

Pertencente te carrego:
Dorso mutante, morte.
Há milênios te sei
E nunca te conheço.
Nós, consortes do tempo
Amada morte
Beijo-te o flanco
Os dentes
Caminho candente a tua sorte
A minha. Te cavalgo. Tento.


Hilda Hilst
Da Morte. Odes Mínimas (1979)

Demora-te sobre...


II

Demora-te sobre a minha hora.
Antes de me tomar, demora.
Que tu me percorras cuidadosa, etérea
Que eu te conheça lícita, terrena

Duas fortes mulheres
Na sua dura hora.

Que me tomes sem pena
Mas voluptuosa, eterna
Como as fêmeas da Terra.

E a ti, te conhecendo
Que eu me faça carne
E posse
Como fazem os homens.


Hilda Hilst
Da Morte. Odes Mínimas (1979)

Nuns atalhos da tarde...


LXVI

Nuns atalhos da tarde
Vivendo imensidão
Minha alma disse a mim
Rica de sombras:
Não pertencida.
Exilada dos sóis
Das outras vidas.

Hilda Hilst
Cantares de perda e predileção (1983)

Tens a medida...


LXIII

Tens a medida do imenso?
Contas o infinito?
E quantas gotas de sangue
Pretendes
Desta amorosa ferida
De tão dilatada fome.

Tens a medida do sonho?
Tens o número do Tempo?
Como hei de saber do extenso
De um ódio-amor que percorre
Furioso
Passadas dentro do vento?

Sabes ainda meu nome?
Fome. De mim na tua vida.


Hilda Hilst
Cantares de perda e predileção (1983)

Cadenciadas...


LIII

Cadenciadas
Vão morrendo as palavras
Na minha boca.
Um sudário de asas
Há de ser agasalho
E pátria para o corpo.
Anônimo, calado
O poeta contempla
Espelho e mágoa

Fragmentos de um veio
Berçário de palavras.
Umas lendas volteiam
O poeta vazio de seus meios:
Escombros, escadas
Amou de amor escuro
A fugiu de si mesmo
De sua própria cilada.

O poeta. Mudo.
Aceitável agora para o mundo
No seu sudário de asas.

Hilda Hilst
Cantares de perda e predileção (1983)

Teus passos somem...



XIX

Teus passos somem
Onde começam as armadilhas.
Curvo-me sobre a treva que me espia.
Ninguém ali. Nem humanos, nem feras.
De escuro e terra tua moradia?

Pegadas finas
Feitas a fogo e espinho.
teu passo queima se me aproximo.

Então me deito sobre as roseiras.
Hei de saber o amor à tua maneira.
Me queimo em sonhos, tocando estrelas.


Hilda Hilst
In Poemas Malditos Gozosos E Devotos (1984)

Que este amor não me,,,


I

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

Hilda Hilst
In Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)

quarta-feira, 30 de março de 2011

NAU ERRANTE




Ilusão – nau singrando em ânsia, em sobressalto,
O Atlântico da Vida, em constantes boléus...
Ondas batem-lhe à popa e ondas tecem, no assalto,
Níveas teias de espuma, alvas tramas de véus...

Hinos de luz à Fé vagam no ar de cobalto,
Os faróis da Esperança olham nos mastaréus,
E os mastros subindo alto, ainda mais alto, alto,
Como para acender as estrelas nos céus...

Vento Sul da Incerteza... Ondas bravas... A Escuna
Oscilando... oscilando... E a vela que se enfuna,
Branco lenço, no espaço, aos longes a acenar...

Ilusão – nau que frui a volúpia das vagas,
Que destino, Ilusão, te irá quebrar nas fragas
Ocultas na amplidão desse trevoso mar?...


Da Costa e Silva

A VIGÍLIA DO SILÊNCIO




Apraz-me ouvir, às horas vespertinas,
Quando o ocaso desmaia o azul sidéreo,
O longo cantochão das casuarinas
Na religiosa paz do cemitério.

As árvores, em múrmuras surdinas,
De um rumor elegíaco e funéreo,
Falam de coisas mortas e divinas,
Veladas pelas sombras do mistério.

A perscrutar as vozes do arvoredo,
Na ânsia inquietante e céptica do sábio,
Tento, ó Morte! saber o teu segredo.

Mas vejo, no alvo mármore das urnas,
O Silêncio com o dedo sobre o lábio,
Olhando as vagas solidões noturnas...

Da Costa e Silva

À SOMBRA DO SALGUEIRO...




Porque fosses o sonho de ventura
Que eu tanto ambicionara e conseguira,
Nunca julgara, nem jamais previra
O transe cruel que agora me tortura.
Só a extensão de um grande mal sem cura
Poderia mostrar que me iludira;
Que a ventura na vida é uma mentira
Sempre falaz àquele que a procura.

Louco de dor, o espírito delira
E a Castália das lágrimas apura
A emoção de infortúnio que me inspira...

Mas foi tamanha a minha desventura,
Que pendurei, muda e quebrada, a lira
No salgueiro da tua sepultura.


Da Costa e Silva

A LÂMPADA DE PRANTO




Tíbia a lâmpada apagava-se
E, antes que o óleo se extinguisse,
Tentei, desolado e triste,
Alimentá-la com lágrimas.
E ei-la com o bojo ainda úmido
De pranto amargo e silente,
A alumiar para sempre
A solidão do teu túmulo.

Nem o vento frio e ríspido
A chama oscilante apaga,
Porque esta luz é a saudade,
E a lâmpada o meu espírito.


Da Costa e Silva

À LUZ DO POENTE...




Há dias que se esquecem de repente
Nesta vida de lutas e cuidados;
E outros que passam, porém são gravados
Na retina e no espírito da gente.

De entre os meus dias tristes já passados,
Há um que a todo tempo está presente,
Pois não me sai dos olhos, nem da mente,
Desde o instante em que fomos separados.

Se pudesse ser sonho o que se sente,
Julgara pensamentos desvairados
O que revejo subjetivamente:

Vultos negros, solenes, desolados,
Levando, lentamente, à luz do poente,
Um caixão roxo de florões dourados.


Da Costa e Silva

A GRANDE DÚVIDA




Porque hei sofrido tantos golpes rudes,
Às vezes penso que outra vida existe,
Para ficar mais cético e mais triste
Com o meu destino de vicissitudes.

Nem sofrendo, às celestes amplitudes
Hei de ascender à altura que atingiste,
Por não poder, na prova que me assiste,
Aos meus erros opor tuas virtudes.

Assim temo, a evocar-te a imagem linda,
Que após a morte, venha a eternidade
Esta separação tornar infinda...

E, então, o sentimento que me invade,
Sem a esperança de te ver ainda,
É dor eterna, não é mais saudade.


Da Costa e Silva

O ETERNO MISTÉRIO




Desde a a tarde violácea em que partiste
Para tão longe, para não sei onde,
Eu vivo a interrogar, calado e triste,
A natureza que me não responde.

Falo à estrela no espaço, à flor na fronde,
A perguntar em vão se o céu existe;
E tudo que a luz mostra e a treva esconde
À voz da minha súplica resiste.

Se há um mundo divino, além do humano,
Indago; e o vento, as águas, o arvoredo,
Têm o mesmo mistério soberano...

A vida não revela esse segredo,
Que a morte oculta num sombrio arcano,
Que enche os homens de dúvida e de medo.


Da Costa e Silva

NA TARDE AZUL E TRISTE...




O meu jardim amanhecera
Constelado de brancas margaridas,
Que orvalhadas, ao sol, eram estrelas
Desencantadas e pensativas...
Depois, na tarde azul e triste,
A terra abriu-se para receber-te!

Adormeceste para sempre,
Baixando à terra com as margaridas...
E à noite o céu era um jardim do Oriente
Florindo em luzes pela tua vinda!

Anoitecia no meu pensamento...


Da Costa e Silva

SÍNTESE




Tornei-me espelho do mundo,
Desde que o meu pensamento
Ficou límpido e profundo
Como o azul do firmamento.

Da Costa e Silva

ADEUS À VIDA




É, então, isso a vida: a nau perdida,
Sem bússola e sem leme, aos temporais?
A flórea escarpa, de íngreme subida,
Da montanha dos risos e dos ais?

É, então, isso a vida: a flor colhida
Sobre abismos ocultos e fatais?
A quimera da Terra Prometida,
No êxodo eterno para o Nunca-Mais?

É, então, isso a vida: o sonho obscuro
Dos Ícaros, Jasões e Prometeus,
Perdido na celagem do futuro?

É, então, isso a vida? — Vida, adeus!
Não é esse o caminho que procuro...
Mas seja tudo pelo amor de Deus.


Da Costa e Silva

O SINAL DA CRUZ




Se é preciso lutar para ser forte,
Se é preciso sofrer para ser puro,
Em luta e sofrimento a vida apuro,
Para tranquilo merecer a morte.

Hei lutado e sofrido de tal sorte
Que, a tantas provações, meu ser impuro
Sonha atingir a perfeição que auguro
Em resignado e místico transporte.

A existência de lutas e de penas,
Como um cardo florindo entre os abrolhos,
Vou bendizendo pelo bem que faço.

E quando a morte vier, resta-me apenas
Juntar as mãos e levantar os olhos
Para o que exista em luz além do espaço.


Da Costa e Silva

A ÚLTIMA ILUSÃO




Sobre o mar de safira, o céu de opala.
Uma vela perdida no horizonte,
E o azul que foge cada vez mais longe...

Ilusão de minh’alma!


Da Costa e Silva

O ÚNICO BEM




Lutei, sonhei, sofri, desde criança,
Nesta inquietude, nesta vã tortura
De quem jamais consegue o que procura
E, se consegue, perde quanto alcança.

Já nem me resta ao menos a esperança,
Para a ilusão da glória e da ventura;
Nem a fé, ante a dúvida, perdura,
Desde que o amor, num túmulo descansa.

Tanto alcancei, quanto perdi, de sorte
Que, em suprema renúncia, a alma vencida
Não devera aspirar senão à morte.

Mas, como a sorte me foi tão funesta,
Aprendi muito mais a amar a vida,
Porque é o único bem que ainda me resta.


Da Costa e Silva

SOMBRA E NÉVOA




Cai o crepúsculo. Chove.
Sobe a névoa... A sombra desce...
Como a tarde me entristece!
Como a chuva me comove!
Cai a tarde, muda e calma...
Cai a chuva, fina e fria...
Anda no ar a nostalgia,
Que é névoa e sombra em minh’alma.

Há não sei que afinidade
Entre mim e a natureza:
Cai a tarde... Que tristeza!
Cai a chuva... Que saudade!


Da Costa e Silva

ENTRE CÉU E ABISMO




A minha vida é um abismo
De dúvida e pessimismo,
Quando ouço o meu coração.
Mas se ouço o meu pensamento,
É também um firmamento
De fé e resignação.

Por isso, entre o céu e o abismo,
Com as nuvens do Cepticismo,
Meus dias correndo vão...


Da Costa e Silva

NÃO DESEJES, NEM SONHES...




Não desejes, nem sonhes, alma incauta,
Que a ilusão tem o encanto da sereia,
Que em noites aromais de lua cheia
Seduz e perde, em alto-mar, o nauta.
Feliz daquele que os seus atos pauta
Dentro dos dons da vida que o rodeia,
E acha o leito macio e a mesa lauta
Na indiferença da fortuna alheia.

Feliz de quem, da vida para a morte,
Embora pobre, de pobreza triste,
Se contenta, afinal, com a própria sorte.

Se há ventura no mundo, essa consiste,
Talvez, em suportar, de ânimo forte,
A renúncia de um bem que não existe.


Da Costa e Silva

SUBIA A LUA, LEVE...




Um luar fluido e veludoso como um bálsamo
Ungia a noite voluptuosa e ardente.
A sua luz era tão branca que tornava o céu diáfano...
Subia a lua leve como o pensamento.
Eu dialogava com o silêncio... Uma toada rústica
De flautas e violões transportou-me à saudade.
E, abstrato de mim mesmo, eu te bendisse, ó música,
Que da tristeza de pensar me libertavas!

Da Costa e Silva

AS HORAS





As Horas cismam no ar parado:
— Passado.

As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.

As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.


Da Costa e Silva

sexta-feira, 25 de março de 2011

A MAGNÓLIA




Sem paixão plantei-a no meio
do jardim. Pesado tributo
à insolvência dos dias.

Bandeiras de cor verde-ferrugem
transeunte natureza de amor desvelam
caravela de pássaros e o vento nas ramas
alegre o riso
na onda: o arco-íris.

(Comprei vestidos sem cor
e – pelo verão – esperei
as vergônteas da morte.
A água que bebi era de cinza.)

Nuvens se espedaçam
inflam botões
alvos
sorrisos na relva
e o chá vertido nas flores bebemos
da lembrança.

(Se nasceram luas apenas
e pétalas decepadas
acaso fui eu
acaso fui
eu?)

Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

JARDIM NOTURNO




Os mortos chegam
pisando com pés de flores
tocam violetas
temem o brilho das rosas
luas de nácar desfazem
na grama
lúnulas maculas de pólen
e as mínimas flores
da deslembrança.
O silencio
agita sombras.
O que buscais amados mortos
pisando com pés de flores:
o odor de dias idos
nas magnólias?
Raízes
de que saudade?

Ah delírio de girassol da noite!

Só o vento desliza.
Os amores-perfeitos (eles buscam) e outros
de azulada memória.

Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

O SILÊNCIO




O silêncio tem uma porta
que se abre
para um silencio maior:
antecâmara do ultimo,
que anuncia outro depois.


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

CHUVA


CHUVA

Estendida a mão
obrigou-te a chuva
a ser quem és:
a do relento,
em vésperas,
pássaro de beira
o pulo no ar
realçando o instante.
A chuva te abrigou,
em concha a palma cheia
de estrias,
marcando a terra
a que pertences.
Sua fome devorou-te
o excesso
e batizou-te: única.


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

NOTURNO




Nossos olhos nos pertencem —
não o dia.
Amor não nos pertence
nem a morte.
Apenas pousam na pérola mais fina.
Desce o luar
No flanco de rios precipitados
folhas se alongam
caules estremecem.

A noite já desfere
seu punhal de trevas.


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

À JANELA DA NOITE




A lua em seu círculo.
Piam pássaros da sombra.
Meu coração destas raízes, hera escura
na solidão de um muro.
Cintila a constelação de Andrômeda
em sua haste de lágrimas.
Nos grãos do vento
partiram pombos em tumulto e brancura.
Nem a glória
nem o lamento:
vento e planura.


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

FANTÁSTICA




De teia tão fina teci teu rosto
no tear dos dias
na sala vazia das noites extenuadas
em triste vigília
pai
urdi tua fonte
tuas mãos
tua melancolia
nascida igual na minha boca
pai
filho imaginário do meu pensamento
se te amo tanto
entre fronteiras cegas
é para compor contigo
o vago poema
que deixaste incompleto


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

FLORES




As flores do inverno vão se abrindo
em arbustos sem folhas
candelabros de ramos
que se aquecem
na débil luz que emana das corolas.
Falam em surdina, veladas de aroma,
as pétalas, bailarinas do pudor,
confidenciando nos vórtices secretos
dentro da pálpebra do dia sem calor.


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

DESPEDIDA




Dizer adeus ao mistério daquela porta cerrada
à luz fosca desse dia abandonado.
Que severa parecias, longínqua e inviolada
flor deste inverno findando.
Recolhi-me entre os crisântemos
que te vestiam tristonhos:
tanto abandono querida uma parede tão dura
impermeável ao pranto à ternura
levados para te dar. Ao meu sim de desalento
nenhuma resposta ou lamento,
nada. Teu segredo, só ele persistia.
Fiquei noturna, olhando teu esquivo dia.

Dora Ferreira da Silva
Cartografia do Imaginário, T.A. Queiroz, Editor, 1999

O FOGO




O fogo acende-se no próprio nome
sete línguas ardem no coração da rosa
e se alastram pelo jardim
voltando depois ao próprio nome.
Se ao fogo perguntas: “É ele? És tu?”
crepitam centelhas. Um Serafim o abraça
e ao coração.

Dora Ferreira da Silva

MURMÚRIOS




Pousa num ramo um sopro de agonia
dos que morrem (sem saber)
em nosso coração.
Suspira a noite no vento vadio.
Amados mortos: tentais dizer
o quanto amais ainda?

Dora Ferreira da Silva

NASCIMENTO DO POEMA


NASCIMENTO DO POEMA

É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranqüila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.


Dora Ferreira da Silva
De Andanças (1948)

Vivos e mortos...



(...)

Vivos e mortos
perambulam nas estradas
um sorriso nos lábios.
O que dizem
no silêncio
agora pleno
da alma?
Appassionata.

O gesto preserva a
emoção e o brusco
perpassar de folhas mortas.
Gemem pássaros noturnos
fiéis da madrugada
até que o horizonte desperte
em sua luz dourada.

Dedos da memória
afagam e são cruéis:
tudo ressurge e se transfigura
no que poderia ser
se a chuva desabasse.
Só os relâmpagos
ao longe
de raios mudos.

(...)

De Appassionata
São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2007 (obra póstuma)

quarta-feira, 23 de março de 2011

FRONTEIRAS



Os cedros, a lua, os túmulos
geraram este silêncio,
ou do silêncio nasceram
cedros, túmulos e lua?

Indiscerníveis limites:
não podemos saber nunca
se triste é este pobre mundo,
se nós é que somos tristes.


Tasso da Silveira
Poemas Tristes – l.966 –

ÚLTIMO SONETO



Ainda hoje a Vida, a carcereira,
deu-me, por entre as grades da prisão,
a minha bilha de água verdadeira
e o meu pedaço humílimo de pão.

A fome fez da minha boca mendigueira
uma cítara, e a sede deu-lhe a afinação
que têm as folhas outoniças da amendoeira
para os dedos sutis da viração.

Assim, cada bocado de centeio
que trituro nos dentes, sabe-me, antes,
a um manjar esquisito e sem igual.

E cada sorvo de água, fresco e cheio,
vibra em meu paladar cordas ressoantes
de secreta lascívia espiritual


Tasso da Silveira
in Poemas

VINHO




É Puro o vinho deste odre,
vindo de preclaros vinhedos.
Apanha-o na taça de ouro,
ou no tarro de barro,
ou no caneco rústico:
- em qualquer humilde vasilha
ele te dará sempre o sabor transcendente
que trouxe de suas altas origens.


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes