Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Da Costa e Silva

NAU ERRANTE

Imagem
Ilusão – nau singrando em ânsia, em sobressalto, O Atlântico da Vida, em constantes boléus... Ondas batem-lhe à popa e ondas tecem, no assalto, Níveas teias de espuma, alvas tramas de véus... Hinos de luz à Fé vagam no ar de cobalto, Os faróis da Esperança olham nos mastaréus, E os mastros subindo alto, ainda mais alto, alto, Como para acender as estrelas nos céus... Vento Sul da Incerteza... Ondas bravas... A Escuna Oscilando... oscilando... E a vela que se enfuna, Branco lenço, no espaço, aos longes a acenar... Ilusão – nau que frui a volúpia das vagas, Que destino, Ilusão, te irá quebrar nas fragas Ocultas na amplidão desse trevoso mar?... Da Costa e Silva

A VIGÍLIA DO SILÊNCIO

Imagem
Apraz-me ouvir, às horas vespertinas, Quando o ocaso desmaia o azul sidéreo, O longo cantochão das casuarinas Na religiosa paz do cemitério. As árvores, em múrmuras surdinas, De um rumor elegíaco e funéreo, Falam de coisas mortas e divinas, Veladas pelas sombras do mistério. A perscrutar as vozes do arvoredo, Na ânsia inquietante e céptica do sábio, Tento, ó Morte! saber o teu segredo. Mas vejo, no alvo mármore das urnas, O Silêncio com o dedo sobre o lábio, Olhando as vagas solidões noturnas... Da Costa e Silva

À SOMBRA DO SALGUEIRO...

Imagem
Porque fosses o sonho de ventura Que eu tanto ambicionara e conseguira, Nunca julgara, nem jamais previra O transe cruel que agora me tortura. Só a extensão de um grande mal sem cura Poderia mostrar que me iludira; Que a ventura na vida é uma mentira Sempre falaz àquele que a procura. Louco de dor, o espírito delira E a Castália das lágrimas apura A emoção de infortúnio que me inspira... Mas foi tamanha a minha desventura, Que pendurei, muda e quebrada, a lira No salgueiro da tua sepultura. Da Costa e Silva

A LÂMPADA DE PRANTO

Imagem
Tíbia a lâmpada apagava-se E, antes que o óleo se extinguisse, Tentei, desolado e triste, Alimentá-la com lágrimas. E ei-la com o bojo ainda úmido De pranto amargo e silente, A alumiar para sempre A solidão do teu túmulo. Nem o vento frio e ríspido A chama oscilante apaga, Porque esta luz é a saudade, E a lâmpada o meu espírito. Da Costa e Silva

À LUZ DO POENTE...

Imagem
Há dias que se esquecem de repente Nesta vida de lutas e cuidados; E outros que passam, porém são gravados Na retina e no espírito da gente. De entre os meus dias tristes já passados, Há um que a todo tempo está presente, Pois não me sai dos olhos, nem da mente, Desde o instante em que fomos separados. Se pudesse ser sonho o que se sente, Julgara pensamentos desvairados O que revejo subjetivamente: Vultos negros, solenes, desolados, Levando, lentamente, à luz do poente, Um caixão roxo de florões dourados. Da Costa e Silva

A GRANDE DÚVIDA

Imagem
Porque hei sofrido tantos golpes rudes, Às vezes penso que outra vida existe, Para ficar mais cético e mais triste Com o meu destino de vicissitudes. Nem sofrendo, às celestes amplitudes Hei de ascender à altura que atingiste, Por não poder, na prova que me assiste, Aos meus erros opor tuas virtudes. Assim temo, a evocar-te a imagem linda, Que após a morte, venha a eternidade Esta separação tornar infinda... E, então, o sentimento que me invade, Sem a esperança de te ver ainda, É dor eterna, não é mais saudade. Da Costa e Silva

O ETERNO MISTÉRIO

Imagem
Desde a a tarde violácea em que partiste Para tão longe, para não sei onde, Eu vivo a interrogar, calado e triste, A natureza que me não responde. Falo à estrela no espaço, à flor na fronde, A perguntar em vão se o céu existe; E tudo que a luz mostra e a treva esconde À voz da minha súplica resiste. Se há um mundo divino, além do humano, Indago; e o vento, as águas, o arvoredo, Têm o mesmo mistério soberano... A vida não revela esse segredo, Que a morte oculta num sombrio arcano, Que enche os homens de dúvida e de medo. Da Costa e Silva

NA TARDE AZUL E TRISTE...

Imagem
O meu jardim amanhecera Constelado de brancas margaridas, Que orvalhadas, ao sol, eram estrelas Desencantadas e pensativas... Depois, na tarde azul e triste, A terra abriu-se para receber-te! Adormeceste para sempre, Baixando à terra com as margaridas... E à noite o céu era um jardim do Oriente Florindo em luzes pela tua vinda! Anoitecia no meu pensamento... Da Costa e Silva

SÍNTESE

Imagem
Tornei-me espelho do mundo, Desde que o meu pensamento Ficou límpido e profundo Como o azul do firmamento. Da Costa e Silva

ADEUS À VIDA

Imagem
É, então, isso a vida: a nau perdida, Sem bússola e sem leme, aos temporais? A flórea escarpa, de íngreme subida, Da montanha dos risos e dos ais? É, então, isso a vida: a flor colhida Sobre abismos ocultos e fatais? A quimera da Terra Prometida, No êxodo eterno para o Nunca-Mais? É, então, isso a vida: o sonho obscuro Dos Ícaros, Jasões e Prometeus, Perdido na celagem do futuro? É, então, isso a vida? — Vida, adeus! Não é esse o caminho que procuro... Mas seja tudo pelo amor de Deus. Da Costa e Silva

O SINAL DA CRUZ

Imagem
Se é preciso lutar para ser forte, Se é preciso sofrer para ser puro, Em luta e sofrimento a vida apuro, Para tranquilo merecer a morte. Hei lutado e sofrido de tal sorte Que, a tantas provações, meu ser impuro Sonha atingir a perfeição que auguro Em resignado e místico transporte. A existência de lutas e de penas, Como um cardo florindo entre os abrolhos, Vou bendizendo pelo bem que faço. E quando a morte vier, resta-me apenas Juntar as mãos e levantar os olhos Para o que exista em luz além do espaço. Da Costa e Silva

A ÚLTIMA ILUSÃO

Imagem
Sobre o mar de safira, o céu de opala. Uma vela perdida no horizonte, E o azul que foge cada vez mais longe... Ilusão de minh’alma! Da Costa e Silva

O ÚNICO BEM

Imagem
Lutei, sonhei, sofri, desde criança, Nesta inquietude, nesta vã tortura De quem jamais consegue o que procura E, se consegue, perde quanto alcança. Já nem me resta ao menos a esperança, Para a ilusão da glória e da ventura; Nem a fé, ante a dúvida, perdura, Desde que o amor, num túmulo descansa. Tanto alcancei, quanto perdi, de sorte Que, em suprema renúncia, a alma vencida Não devera aspirar senão à morte. Mas, como a sorte me foi tão funesta, Aprendi muito mais a amar a vida, Porque é o único bem que ainda me resta. Da Costa e Silva

SOMBRA E NÉVOA

Imagem
Cai o crepúsculo. Chove. Sobe a névoa... A sombra desce... Como a tarde me entristece! Como a chuva me comove! Cai a tarde, muda e calma... Cai a chuva, fina e fria... Anda no ar a nostalgia, Que é névoa e sombra em minh’alma. Há não sei que afinidade Entre mim e a natureza: Cai a tarde... Que tristeza! Cai a chuva... Que saudade! Da Costa e Silva

ENTRE CÉU E ABISMO

Imagem
A minha vida é um abismo De dúvida e pessimismo, Quando ouço o meu coração. Mas se ouço o meu pensamento, É também um firmamento De fé e resignação. Por isso, entre o céu e o abismo, Com as nuvens do Cepticismo, Meus dias correndo vão... Da Costa e Silva

NÃO DESEJES, NEM SONHES...

Imagem
Não desejes, nem sonhes, alma incauta, Que a ilusão tem o encanto da sereia, Que em noites aromais de lua cheia Seduz e perde, em alto-mar, o nauta. Feliz daquele que os seus atos pauta Dentro dos dons da vida que o rodeia, E acha o leito macio e a mesa lauta Na indiferença da fortuna alheia. Feliz de quem, da vida para a morte, Embora pobre, de pobreza triste, Se contenta, afinal, com a própria sorte. Se há ventura no mundo, essa consiste, Talvez, em suportar, de ânimo forte, A renúncia de um bem que não existe. Da Costa e Silva

SUBIA A LUA, LEVE...

Imagem
Um luar fluido e veludoso como um bálsamo Ungia a noite voluptuosa e ardente. A sua luz era tão branca que tornava o céu diáfano... Subia a lua leve como o pensamento. Eu dialogava com o silêncio... Uma toada rústica De flautas e violões transportou-me à saudade. E, abstrato de mim mesmo, eu te bendisse, ó música, Que da tristeza de pensar me libertavas! Da Costa e Silva

AS HORAS

Imagem
As Horas cismam no ar parado: — Passado. As Horas bailam no ar fremente: — Presente. As Horas sonham no ar obscuro: — Futuro. Da Costa e Silva