quarta-feira, 30 de março de 2011

NAU ERRANTE




Ilusão – nau singrando em ânsia, em sobressalto,
O Atlântico da Vida, em constantes boléus...
Ondas batem-lhe à popa e ondas tecem, no assalto,
Níveas teias de espuma, alvas tramas de véus...

Hinos de luz à Fé vagam no ar de cobalto,
Os faróis da Esperança olham nos mastaréus,
E os mastros subindo alto, ainda mais alto, alto,
Como para acender as estrelas nos céus...

Vento Sul da Incerteza... Ondas bravas... A Escuna
Oscilando... oscilando... E a vela que se enfuna,
Branco lenço, no espaço, aos longes a acenar...

Ilusão – nau que frui a volúpia das vagas,
Que destino, Ilusão, te irá quebrar nas fragas
Ocultas na amplidão desse trevoso mar?...


Da Costa e Silva

A VIGÍLIA DO SILÊNCIO




Apraz-me ouvir, às horas vespertinas,
Quando o ocaso desmaia o azul sidéreo,
O longo cantochão das casuarinas
Na religiosa paz do cemitério.

As árvores, em múrmuras surdinas,
De um rumor elegíaco e funéreo,
Falam de coisas mortas e divinas,
Veladas pelas sombras do mistério.

A perscrutar as vozes do arvoredo,
Na ânsia inquietante e céptica do sábio,
Tento, ó Morte! saber o teu segredo.

Mas vejo, no alvo mármore das urnas,
O Silêncio com o dedo sobre o lábio,
Olhando as vagas solidões noturnas...

Da Costa e Silva

À SOMBRA DO SALGUEIRO...




Porque fosses o sonho de ventura
Que eu tanto ambicionara e conseguira,
Nunca julgara, nem jamais previra
O transe cruel que agora me tortura.
Só a extensão de um grande mal sem cura
Poderia mostrar que me iludira;
Que a ventura na vida é uma mentira
Sempre falaz àquele que a procura.

Louco de dor, o espírito delira
E a Castália das lágrimas apura
A emoção de infortúnio que me inspira...

Mas foi tamanha a minha desventura,
Que pendurei, muda e quebrada, a lira
No salgueiro da tua sepultura.


Da Costa e Silva

A LÂMPADA DE PRANTO




Tíbia a lâmpada apagava-se
E, antes que o óleo se extinguisse,
Tentei, desolado e triste,
Alimentá-la com lágrimas.
E ei-la com o bojo ainda úmido
De pranto amargo e silente,
A alumiar para sempre
A solidão do teu túmulo.

Nem o vento frio e ríspido
A chama oscilante apaga,
Porque esta luz é a saudade,
E a lâmpada o meu espírito.


Da Costa e Silva

À LUZ DO POENTE...




Há dias que se esquecem de repente
Nesta vida de lutas e cuidados;
E outros que passam, porém são gravados
Na retina e no espírito da gente.

De entre os meus dias tristes já passados,
Há um que a todo tempo está presente,
Pois não me sai dos olhos, nem da mente,
Desde o instante em que fomos separados.

Se pudesse ser sonho o que se sente,
Julgara pensamentos desvairados
O que revejo subjetivamente:

Vultos negros, solenes, desolados,
Levando, lentamente, à luz do poente,
Um caixão roxo de florões dourados.


Da Costa e Silva

A GRANDE DÚVIDA




Porque hei sofrido tantos golpes rudes,
Às vezes penso que outra vida existe,
Para ficar mais cético e mais triste
Com o meu destino de vicissitudes.

Nem sofrendo, às celestes amplitudes
Hei de ascender à altura que atingiste,
Por não poder, na prova que me assiste,
Aos meus erros opor tuas virtudes.

Assim temo, a evocar-te a imagem linda,
Que após a morte, venha a eternidade
Esta separação tornar infinda...

E, então, o sentimento que me invade,
Sem a esperança de te ver ainda,
É dor eterna, não é mais saudade.


Da Costa e Silva

O ETERNO MISTÉRIO




Desde a a tarde violácea em que partiste
Para tão longe, para não sei onde,
Eu vivo a interrogar, calado e triste,
A natureza que me não responde.

Falo à estrela no espaço, à flor na fronde,
A perguntar em vão se o céu existe;
E tudo que a luz mostra e a treva esconde
À voz da minha súplica resiste.

Se há um mundo divino, além do humano,
Indago; e o vento, as águas, o arvoredo,
Têm o mesmo mistério soberano...

A vida não revela esse segredo,
Que a morte oculta num sombrio arcano,
Que enche os homens de dúvida e de medo.


Da Costa e Silva

NA TARDE AZUL E TRISTE...




O meu jardim amanhecera
Constelado de brancas margaridas,
Que orvalhadas, ao sol, eram estrelas
Desencantadas e pensativas...
Depois, na tarde azul e triste,
A terra abriu-se para receber-te!

Adormeceste para sempre,
Baixando à terra com as margaridas...
E à noite o céu era um jardim do Oriente
Florindo em luzes pela tua vinda!

Anoitecia no meu pensamento...


Da Costa e Silva

SÍNTESE




Tornei-me espelho do mundo,
Desde que o meu pensamento
Ficou límpido e profundo
Como o azul do firmamento.

Da Costa e Silva

ADEUS À VIDA




É, então, isso a vida: a nau perdida,
Sem bússola e sem leme, aos temporais?
A flórea escarpa, de íngreme subida,
Da montanha dos risos e dos ais?

É, então, isso a vida: a flor colhida
Sobre abismos ocultos e fatais?
A quimera da Terra Prometida,
No êxodo eterno para o Nunca-Mais?

É, então, isso a vida: o sonho obscuro
Dos Ícaros, Jasões e Prometeus,
Perdido na celagem do futuro?

É, então, isso a vida? — Vida, adeus!
Não é esse o caminho que procuro...
Mas seja tudo pelo amor de Deus.


Da Costa e Silva

O SINAL DA CRUZ




Se é preciso lutar para ser forte,
Se é preciso sofrer para ser puro,
Em luta e sofrimento a vida apuro,
Para tranquilo merecer a morte.

Hei lutado e sofrido de tal sorte
Que, a tantas provações, meu ser impuro
Sonha atingir a perfeição que auguro
Em resignado e místico transporte.

A existência de lutas e de penas,
Como um cardo florindo entre os abrolhos,
Vou bendizendo pelo bem que faço.

E quando a morte vier, resta-me apenas
Juntar as mãos e levantar os olhos
Para o que exista em luz além do espaço.


Da Costa e Silva

A ÚLTIMA ILUSÃO




Sobre o mar de safira, o céu de opala.
Uma vela perdida no horizonte,
E o azul que foge cada vez mais longe...

Ilusão de minh’alma!


Da Costa e Silva

O ÚNICO BEM




Lutei, sonhei, sofri, desde criança,
Nesta inquietude, nesta vã tortura
De quem jamais consegue o que procura
E, se consegue, perde quanto alcança.

Já nem me resta ao menos a esperança,
Para a ilusão da glória e da ventura;
Nem a fé, ante a dúvida, perdura,
Desde que o amor, num túmulo descansa.

Tanto alcancei, quanto perdi, de sorte
Que, em suprema renúncia, a alma vencida
Não devera aspirar senão à morte.

Mas, como a sorte me foi tão funesta,
Aprendi muito mais a amar a vida,
Porque é o único bem que ainda me resta.


Da Costa e Silva

SOMBRA E NÉVOA




Cai o crepúsculo. Chove.
Sobe a névoa... A sombra desce...
Como a tarde me entristece!
Como a chuva me comove!
Cai a tarde, muda e calma...
Cai a chuva, fina e fria...
Anda no ar a nostalgia,
Que é névoa e sombra em minh’alma.

Há não sei que afinidade
Entre mim e a natureza:
Cai a tarde... Que tristeza!
Cai a chuva... Que saudade!


Da Costa e Silva

ENTRE CÉU E ABISMO




A minha vida é um abismo
De dúvida e pessimismo,
Quando ouço o meu coração.
Mas se ouço o meu pensamento,
É também um firmamento
De fé e resignação.

Por isso, entre o céu e o abismo,
Com as nuvens do Cepticismo,
Meus dias correndo vão...


Da Costa e Silva

NÃO DESEJES, NEM SONHES...




Não desejes, nem sonhes, alma incauta,
Que a ilusão tem o encanto da sereia,
Que em noites aromais de lua cheia
Seduz e perde, em alto-mar, o nauta.
Feliz daquele que os seus atos pauta
Dentro dos dons da vida que o rodeia,
E acha o leito macio e a mesa lauta
Na indiferença da fortuna alheia.

Feliz de quem, da vida para a morte,
Embora pobre, de pobreza triste,
Se contenta, afinal, com a própria sorte.

Se há ventura no mundo, essa consiste,
Talvez, em suportar, de ânimo forte,
A renúncia de um bem que não existe.


Da Costa e Silva

SUBIA A LUA, LEVE...




Um luar fluido e veludoso como um bálsamo
Ungia a noite voluptuosa e ardente.
A sua luz era tão branca que tornava o céu diáfano...
Subia a lua leve como o pensamento.
Eu dialogava com o silêncio... Uma toada rústica
De flautas e violões transportou-me à saudade.
E, abstrato de mim mesmo, eu te bendisse, ó música,
Que da tristeza de pensar me libertavas!

Da Costa e Silva

AS HORAS





As Horas cismam no ar parado:
— Passado.

As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.

As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.


Da Costa e Silva

sexta-feira, 25 de março de 2011

A MAGNÓLIA




Sem paixão plantei-a no meio
do jardim. Pesado tributo
à insolvência dos dias.

Bandeiras de cor verde-ferrugem
transeunte natureza de amor desvelam
caravela de pássaros e o vento nas ramas
alegre o riso
na onda: o arco-íris.

(Comprei vestidos sem cor
e – pelo verão – esperei
as vergônteas da morte.
A água que bebi era de cinza.)

Nuvens se espedaçam
inflam botões
alvos
sorrisos na relva
e o chá vertido nas flores bebemos
da lembrança.

(Se nasceram luas apenas
e pétalas decepadas
acaso fui eu
acaso fui
eu?)

Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

JARDIM NOTURNO




Os mortos chegam
pisando com pés de flores
tocam violetas
temem o brilho das rosas
luas de nácar desfazem
na grama
lúnulas maculas de pólen
e as mínimas flores
da deslembrança.
O silencio
agita sombras.
O que buscais amados mortos
pisando com pés de flores:
o odor de dias idos
nas magnólias?
Raízes
de que saudade?

Ah delírio de girassol da noite!

Só o vento desliza.
Os amores-perfeitos (eles buscam) e outros
de azulada memória.

Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

O SILÊNCIO




O silêncio tem uma porta
que se abre
para um silencio maior:
antecâmara do ultimo,
que anuncia outro depois.


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

CHUVA


CHUVA

Estendida a mão
obrigou-te a chuva
a ser quem és:
a do relento,
em vésperas,
pássaro de beira
o pulo no ar
realçando o instante.
A chuva te abrigou,
em concha a palma cheia
de estrias,
marcando a terra
a que pertences.
Sua fome devorou-te
o excesso
e batizou-te: única.


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

NOTURNO




Nossos olhos nos pertencem —
não o dia.
Amor não nos pertence
nem a morte.
Apenas pousam na pérola mais fina.
Desce o luar
No flanco de rios precipitados
folhas se alongam
caules estremecem.

A noite já desfere
seu punhal de trevas.


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

À JANELA DA NOITE




A lua em seu círculo.
Piam pássaros da sombra.
Meu coração destas raízes, hera escura
na solidão de um muro.
Cintila a constelação de Andrômeda
em sua haste de lágrimas.
Nos grãos do vento
partiram pombos em tumulto e brancura.
Nem a glória
nem o lamento:
vento e planura.


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

FANTÁSTICA




De teia tão fina teci teu rosto
no tear dos dias
na sala vazia das noites extenuadas
em triste vigília
pai
urdi tua fonte
tuas mãos
tua melancolia
nascida igual na minha boca
pai
filho imaginário do meu pensamento
se te amo tanto
entre fronteiras cegas
é para compor contigo
o vago poema
que deixaste incompleto


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

FLORES




As flores do inverno vão se abrindo
em arbustos sem folhas
candelabros de ramos
que se aquecem
na débil luz que emana das corolas.
Falam em surdina, veladas de aroma,
as pétalas, bailarinas do pudor,
confidenciando nos vórtices secretos
dentro da pálpebra do dia sem calor.


Dora Ferreira da Silva
Poesia Reunida (1999)

DESPEDIDA




Dizer adeus ao mistério daquela porta cerrada
à luz fosca desse dia abandonado.
Que severa parecias, longínqua e inviolada
flor deste inverno findando.
Recolhi-me entre os crisântemos
que te vestiam tristonhos:
tanto abandono querida uma parede tão dura
impermeável ao pranto à ternura
levados para te dar. Ao meu sim de desalento
nenhuma resposta ou lamento,
nada. Teu segredo, só ele persistia.
Fiquei noturna, olhando teu esquivo dia.

Dora Ferreira da Silva
Cartografia do Imaginário, T.A. Queiroz, Editor, 1999

O FOGO




O fogo acende-se no próprio nome
sete línguas ardem no coração da rosa
e se alastram pelo jardim
voltando depois ao próprio nome.
Se ao fogo perguntas: “É ele? És tu?”
crepitam centelhas. Um Serafim o abraça
e ao coração.

Dora Ferreira da Silva

MURMÚRIOS




Pousa num ramo um sopro de agonia
dos que morrem (sem saber)
em nosso coração.
Suspira a noite no vento vadio.
Amados mortos: tentais dizer
o quanto amais ainda?

Dora Ferreira da Silva

NASCIMENTO DO POEMA


NASCIMENTO DO POEMA

É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.

É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.

E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranqüila:
senhor do duplo reino
coroado
de sóis e luas.


Dora Ferreira da Silva
De Andanças (1948)

Vivos e mortos...



(...)

Vivos e mortos
perambulam nas estradas
um sorriso nos lábios.
O que dizem
no silêncio
agora pleno
da alma?
Appassionata.

O gesto preserva a
emoção e o brusco
perpassar de folhas mortas.
Gemem pássaros noturnos
fiéis da madrugada
até que o horizonte desperte
em sua luz dourada.

Dedos da memória
afagam e são cruéis:
tudo ressurge e se transfigura
no que poderia ser
se a chuva desabasse.
Só os relâmpagos
ao longe
de raios mudos.

(...)

De Appassionata
São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2007 (obra póstuma)

quarta-feira, 23 de março de 2011

FRONTEIRAS



Os cedros, a lua, os túmulos
geraram este silêncio,
ou do silêncio nasceram
cedros, túmulos e lua?

Indiscerníveis limites:
não podemos saber nunca
se triste é este pobre mundo,
se nós é que somos tristes.


Tasso da Silveira
Poemas Tristes – l.966 –

ÚLTIMO SONETO



Ainda hoje a Vida, a carcereira,
deu-me, por entre as grades da prisão,
a minha bilha de água verdadeira
e o meu pedaço humílimo de pão.

A fome fez da minha boca mendigueira
uma cítara, e a sede deu-lhe a afinação
que têm as folhas outoniças da amendoeira
para os dedos sutis da viração.

Assim, cada bocado de centeio
que trituro nos dentes, sabe-me, antes,
a um manjar esquisito e sem igual.

E cada sorvo de água, fresco e cheio,
vibra em meu paladar cordas ressoantes
de secreta lascívia espiritual


Tasso da Silveira
in Poemas

VINHO




É Puro o vinho deste odre,
vindo de preclaros vinhedos.
Apanha-o na taça de ouro,
ou no tarro de barro,
ou no caneco rústico:
- em qualquer humilde vasilha
ele te dará sempre o sabor transcendente
que trouxe de suas altas origens.


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes

ÁRVORE




Eu te fui como uma árvore possante,
a cuja sombra vieste repousar.
Ardia o sol ... Pelo caminho adiante
onde teu débil corpo resguardar?

Dei-te, em sombra e perfume, nesse instante,
toda a minha alma ... E a minha fronde, no ar
era um aberto pálio verdejante
para te proteger e te salvar ...

Mas que bom de velar sobre a fraqueza
de alguém que, ingênua e simples, de surpresa,
a nós, confiante, e pura, se entregou ...

Ah! Nem senti a ventania doida
que passou ululando e quase toda
minha verde folhagem despencou ...


Tasso da Silveira
in Poemas

O MISTÉRIO



Quem sentiu a angústia verdadeira?
Quem penetrou o fundo dessa dor?
Tomam todos o brilho da lareira
pela estrela (tão alta!) do pastor ...

Soluçando e cantando é que a alma inteira
escondes por orgulho ou por pudor,
para guardá-la, assim, da humana poeira,
dentro desse mistério redentor!

Nunca ninguém te soube ver, disperso
no teu canto sentido, a dor que avulta
dia a dia ... O secreto, íntimo mal,

que é presente e invisível no teu verso,
como o perfume de uma flor oculta
como Deus na grandeza universal! ...


Tasso da Silveira
in Poemas

FIO D’ÁGUA




Fio d’água, humilde e brando,
Da transparência dos cristais:
Tão claro e límpido vais
Cantarolando,
Que deixas ver, lá, no fundo,
A areia fina alvejando ...

Tão diáfano! até parece
Que a areia é que vai cantando ...

Verso meu, fio d’água oriundo
Da fonte da dor ... pudesse
(Ai de mim!)
Fazer-te tão claro assim,
que se visse, lá no fundo,
- só – minha alma cantando
ou soluçando ...


Tasso da Silveira
Canções a Curitiba
& outros poemas

O LUAR E O CHAFARIZ




No chafariz o tênue gorgolejo
era pura magia. O encantamento
enchia a clara noite e, lento, lento,
iam surdindo os sonhos, e o Desejo.

Mas isto foi no efêmero momento.
De há muito a voz calou-se. Agora vejo
pedras tombadas, seca a fonte, e o adejo
de asas de sombra e de aniquilamento.

E o luar, que ao toque mágico da antiga
cantiga da água, era também cantiga
fluindo, fresca e feliz, do céu profundo,

nesta hora triste e trêmula da vida,
condensado em lembrança dolorida,
é silêncio infinito sobre o mundo.



Tasso da Silveira
Canções a Curitiba
& outros poemas

UM POEMA QUE LI OUTRORA




A madrugada, fresca e linda,
rompendo as trevas, encontrou
a Natureza adormecida ainda.

Súbito, uma ave, num pipilo
límpido e claro, despertou
a árvore enorme que lhe dera asilo...

E a árvore, comovida,
transmitiu à floresta secular
o doce frêmito de vida.

E floresta levou-o ao céu distante,
e o céu mandou-o ao mar...

E, assim, no deslumbramento desse instante,
toda a Terra, a florir, pôs-se a cantar!...


Tasso da Silveira
in Poemas

REI DESTRONADO




Houve um tempo em que o Mar, grandioso e soberano,
sobre a terra imperou... Nem valado, nem serra,
nem animal, nem flor... Por toda a parte o insano
e trágico fragor que o seu rugido encerra.

Mas a luta interior, a incandescente guerra,
convulsionando o globo – insondável arcano! –
numa glória imortal fez exsurgir a Terra,
preexcelsa, a dominar sobre a amplidão do oceano!...

Hoje procura o Mar, bramindo ansioso e tredo,
conquistá-la outra vez... Contra a Terra se lança
Mas a Terra lhe opõe o orgulho do rochedo...

E, em vagalhões, o abismo, agitado e profundo,
ruge de ódio, a lembrar, num clamor de vingança,
o áureo tempo em que foi dominador do mundo!...

Tasso da Silveira
Poemas

LUA...




Lua! Canção de mágoa, triste endeixa
de saudade, no azul do céu perdida...
Companheira dos que vão sós na vida,
dos que não têm quem lhes escute a queixa...
O teu frio palor na alma nos deixa
a tristeza profunda e comovida
de quando a alguém a eterna despedida
vamos levar, e um túmulo se fecha...
Errante e só pela infinita altura,
há milênios que vens, ó Lua triste,
iluminando a humana desventura..
E parece que em ti se congelaram
todos os ais de súplica que ouviste
e a ânsia dos olhos todos que te olharam...



Tasso da Silveira

POEMA




Das torres de sombra do crepúsculo
partem os pássaros.
São como setas céleres
que vão ferir a nua espádua
do dia em fuga, além.

Das torres de pedra da urbe oceânica
tombam as horas túmidas.
São como longas, lentas lágrimas
que vão morrer na poeira humílima
de um chão de além.

Das torres de mágoa da alma trêmula
não partem asas fúlgidas
nem tombam prantos recônditos.
Mas sobe o silêncio trágico
para um Além do além.


Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 -

OUTONO




O outono é pomo... É puro pomo o outono.
Pomo de sonho e de recolhimento,
pendendo, longe do amargor violento,
num perdido pomar de sombra e sono.

Há o vento, é certo, o lamentoso vento,
uivando, uivando como cão sem dono.
E a tristeza passando a passo lento
na alameda... E as lembranças. E o abandono.

Mas há também, no outono, essa doçura,
essa total renúncia de oferenda,
esse eterno alheiamento à dor e ao mal,

que faz do pomo uma presença pura
da bondade de Deus na ânsia tremenda,
no degredo da angústia universal.


Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –

TREVA...




Acende a lanterna da Tua graça
na floresta funda
para que eu ache o caminho
da Tua casa perdida entre penumbras tão distantes...

Acende a lanterna da Tua graça,
por que não há trilhos mais ásperos
nem mais secretos precipícios
do que os da floresta funda.
Nem distâncias que se prolonguem tão desesperantemente,
nem medo tão longo de ficar-se perdido para sempre...

Acende a lanterna da Tua graça,
porque para os meus olhos se apagaram
todas as paisagens lúcidas.
Porque a minha treva transbordou de dentro de mim mesmo
sobre as coisas do mundo..."


Tasso da Silveira

ENCANTAMENTO




A tarde jogou os seus sete véus luminosos
sobre a montanha,
e ficou toda nua dançando
com sombras de crepúsculo
a escorrerem-lhe, suaves, pela pele dourada...
...e ficou toda nua dançando
na campina
ao som da harpa encantada do silêncio...

Tasso da Silveira
In As Imagens Acesas, Poemas

A CANOA




Rompida de brechas, carcomida
por anos sem conta de luta no mar,
a velha canoa dos pescadores
foi arrastada para a planície,
foi exilada em terra firme,
longe do mar.

Mas veio o crepúsculo, e pôs distâncias no horizonte.

E a planície fremiu ansiadamente ...

... como se tivesse vontade de ser água
para a canoa navegar ...



Tasso da Silveira
in Poemas

NOTURNO




Veleiro ao cais amarrado
em vago balouço, dorme?
Não dorme. Sonha, acordado,
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.

Se acaso me objetardes
que veleiro não é gente
e, assim, não sonha nem sente,
sem orgulhos nem alardes
eu direi: por que haveria
de falar-vos do homem triste
mas de olhar grave e profundo
que, à amargura acorrentado
sonha, no entanto, que vive
toda a beleza do mundo?

Melhor é dizer: Veleiro...
veleiro ao cais amarrado,
sob as límpidas estrelas.
Vela branca é uma alma trêmula,
sobretudo se cai sombra
do alto abismo constelado.
Veleiro, sim, que não dorme
mas na silente penumbra
sonha, ao balouço, acordado
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.


Tasso da Silveira
In Tasso da Silveira - Poemas