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Perderás de mim

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VII Perderás de mim Todas as horas Porque só me tomarás A uma determinada hora. E talvez venhas Num instante de vazio E insipidez. Imagina-te o que perderás Eu que vivi no vermelho Porque poeta, e caminhei A chama dos caminhos Atravessei o sol Toquei o muro de dentro Dos amigos A boca nos sentimentos E fui tomada, ferida De malassombros, de gozo Morte, imagina-te. Hilda Hilst Da Morte. Odes Mínimas (1979)

Pertencente te carrego...

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III Pertencente te carrego: Dorso mutante, morte. Há milênios te sei E nunca te conheço. Nós, consortes do tempo Amada morte Beijo-te o flanco Os dentes Caminho candente a tua sorte A minha. Te cavalgo. Tento. Hilda Hilst Da Morte. Odes Mínimas (1979)

Demora-te sobre...

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II Demora-te sobre a minha hora. Antes de me tomar, demora. Que tu me percorras cuidadosa, etérea Que eu te conheça lícita, terrena Duas fortes mulheres Na sua dura hora. Que me tomes sem pena Mas voluptuosa, eterna Como as fêmeas da Terra. E a ti, te conhecendo Que eu me faça carne E posse Como fazem os homens. Hilda Hilst Da Morte. Odes Mínimas (1979)

Nuns atalhos da tarde...

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LXVI Nuns atalhos da tarde Vivendo imensidão Minha alma disse a mim Rica de sombras: Não pertencida. Exilada dos sóis Das outras vidas. Hilda Hilst Cantares de perda e predileção (1983)

Tens a medida...

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LXIII Tens a medida do imenso? Contas o infinito? E quantas gotas de sangue Pretendes Desta amorosa ferida De tão dilatada fome. Tens a medida do sonho? Tens o número do Tempo? Como hei de saber do extenso De um ódio-amor que percorre Furioso Passadas dentro do vento? Sabes ainda meu nome? Fome. De mim na tua vida. Hilda Hilst Cantares de perda e predileção (1983)

Cadenciadas...

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LIII Cadenciadas Vão morrendo as palavras Na minha boca. Um sudário de asas Há de ser agasalho E pátria para o corpo. Anônimo, calado O poeta contempla Espelho e mágoa Fragmentos de um veio Berçário de palavras. Umas lendas volteiam O poeta vazio de seus meios: Escombros, escadas Amou de amor escuro A fugiu de si mesmo De sua própria cilada. O poeta. Mudo. Aceitável agora para o mundo No seu sudário de asas. Hilda Hilst Cantares de perda e predileção (1983)

Teus passos somem...

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XIX Teus passos somem Onde começam as armadilhas. Curvo-me sobre a treva que me espia. Ninguém ali. Nem humanos, nem feras. De escuro e terra tua moradia? Pegadas finas Feitas a fogo e espinho. teu passo queima se me aproximo. Então me deito sobre as roseiras. Hei de saber o amor à tua maneira. Me queimo em sonhos, tocando estrelas. Hilda Hilst In Poemas Malditos Gozosos E Devotos (1984)

Que este amor não me,,,

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I Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua do estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida. Hilda Hilst In Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)