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Mostrando postagens com o rótulo Dora Ferreira da Silva

A MAGNÓLIA

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Sem paixão plantei-a no meio do jardim. Pesado tributo à insolvência dos dias. Bandeiras de cor verde-ferrugem transeunte natureza de amor desvelam caravela de pássaros e o vento nas ramas alegre o riso na onda: o arco-íris. (Comprei vestidos sem cor e – pelo verão – esperei as vergônteas da morte. A água que bebi era de cinza.) Nuvens se espedaçam inflam botões alvos sorrisos na relva e o chá vertido nas flores bebemos da lembrança. (Se nasceram luas apenas e pétalas decepadas acaso fui eu acaso fui eu?) Dora Ferreira da Silva Poesia Reunida (1999)

JARDIM NOTURNO

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Os mortos chegam pisando com pés de flores tocam violetas temem o brilho das rosas luas de nácar desfazem na grama lúnulas maculas de pólen e as mínimas flores da deslembrança. O silencio agita sombras. O que buscais amados mortos pisando com pés de flores: o odor de dias idos nas magnólias? Raízes de que saudade? Ah delírio de girassol da noite! Só o vento desliza. Os amores-perfeitos (eles buscam) e outros de azulada memória. Dora Ferreira da Silva Poesia Reunida (1999)

O SILÊNCIO

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O silêncio tem uma porta que se abre para um silencio maior: antecâmara do ultimo, que anuncia outro depois. Dora Ferreira da Silva Poesia Reunida (1999)

CHUVA

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CHUVA Estendida a mão obrigou-te a chuva a ser quem és: a do relento, em vésperas, pássaro de beira o pulo no ar realçando o instante. A chuva te abrigou, em concha a palma cheia de estrias, marcando a terra a que pertences. Sua fome devorou-te o excesso e batizou-te: única. Dora Ferreira da Silva Poesia Reunida (1999)

NOTURNO

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Nossos olhos nos pertencem — não o dia. Amor não nos pertence nem a morte. Apenas pousam na pérola mais fina. Desce o luar No flanco de rios precipitados folhas se alongam caules estremecem. A noite já desfere seu punhal de trevas. Dora Ferreira da Silva Poesia Reunida (1999)

À JANELA DA NOITE

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A lua em seu círculo. Piam pássaros da sombra. Meu coração destas raízes, hera escura na solidão de um muro. Cintila a constelação de Andrômeda em sua haste de lágrimas. Nos grãos do vento partiram pombos em tumulto e brancura. Nem a glória nem o lamento: vento e planura. Dora Ferreira da Silva Poesia Reunida (1999)

FANTÁSTICA

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De teia tão fina teci teu rosto no tear dos dias na sala vazia das noites extenuadas em triste vigília pai urdi tua fonte tuas mãos tua melancolia nascida igual na minha boca pai filho imaginário do meu pensamento se te amo tanto entre fronteiras cegas é para compor contigo o vago poema que deixaste incompleto Dora Ferreira da Silva Poesia Reunida (1999)

FLORES

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As flores do inverno vão se abrindo em arbustos sem folhas candelabros de ramos que se aquecem na débil luz que emana das corolas. Falam em surdina, veladas de aroma, as pétalas, bailarinas do pudor, confidenciando nos vórtices secretos dentro da pálpebra do dia sem calor. Dora Ferreira da Silva Poesia Reunida (1999)

DESPEDIDA

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Dizer adeus ao mistério daquela porta cerrada à luz fosca desse dia abandonado. Que severa parecias, longínqua e inviolada flor deste inverno findando. Recolhi-me entre os crisântemos que te vestiam tristonhos: tanto abandono querida uma parede tão dura impermeável ao pranto à ternura levados para te dar. Ao meu sim de desalento nenhuma resposta ou lamento, nada. Teu segredo, só ele persistia. Fiquei noturna, olhando teu esquivo dia. Dora Ferreira da Silva Cartografia do Imaginário, T.A. Queiroz, Editor, 1999

O FOGO

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O fogo acende-se no próprio nome sete línguas ardem no coração da rosa e se alastram pelo jardim voltando depois ao próprio nome. Se ao fogo perguntas: “É ele? És tu?” crepitam centelhas. Um Serafim o abraça e ao coração. Dora Ferreira da Silva

MURMÚRIOS

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Pousa num ramo um sopro de agonia dos que morrem (sem saber) em nosso coração. Suspira a noite no vento vadio. Amados mortos: tentais dizer o quanto amais ainda? Dora Ferreira da Silva

NASCIMENTO DO POEMA

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NASCIMENTO DO POEMA É preciso que venha de longe do vento mais antigo ou da morte é preciso que venha impreciso inesperado como a rosa ou como o riso o poema inecessário. É preciso que ferido de amor entre pombos ou nas mansas colinas que o ódio afaga ele venha sob o látego da insônia morto e preservado. E então desperta para o rito da forma lúcida tranqüila: senhor do duplo reino coroado de sóis e luas. Dora Ferreira da Silva De Andanças (1948)

Vivos e mortos...

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(...) Vivos e mortos perambulam nas estradas um sorriso nos lábios. O que dizem no silêncio agora pleno da alma? Appassionata. O gesto preserva a emoção e o brusco perpassar de folhas mortas. Gemem pássaros noturnos fiéis da madrugada até que o horizonte desperte em sua luz dourada. Dedos da memória afagam e são cruéis: tudo ressurge e se transfigura no que poderia ser se a chuva desabasse. Só os relâmpagos ao longe de raios mudos. (...) De Appassionata São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2007 (obra póstuma)