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Mostrando postagens com o rótulo Tasso da Silveira

FRONTEIRAS

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Os cedros, a lua, os túmulos geraram este silêncio, ou do silêncio nasceram cedros, túmulos e lua? Indiscerníveis limites: não podemos saber nunca se triste é este pobre mundo, se nós é que somos tristes. Tasso da Silveira Poemas Tristes – l.966 –

ÚLTIMO SONETO

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Ainda hoje a Vida, a carcereira, deu-me, por entre as grades da prisão, a minha bilha de água verdadeira e o meu pedaço humílimo de pão. A fome fez da minha boca mendigueira uma cítara, e a sede deu-lhe a afinação que têm as folhas outoniças da amendoeira para os dedos sutis da viração. Assim, cada bocado de centeio que trituro nos dentes, sabe-me, antes, a um manjar esquisito e sem igual. E cada sorvo de água, fresco e cheio, vibra em meu paladar cordas ressoantes de secreta lascívia espiritual Tasso da Silveira in Poemas

VINHO

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É Puro o vinho deste odre, vindo de preclaros vinhedos. Apanha-o na taça de ouro, ou no tarro de barro, ou no caneco rústico: - em qualquer humilde vasilha ele te dará sempre o sabor transcendente que trouxe de suas altas origens. Tasso da Silveira in Poemas de Antes

ÁRVORE

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Eu te fui como uma árvore possante, a cuja sombra vieste repousar. Ardia o sol ... Pelo caminho adiante onde teu débil corpo resguardar? Dei-te, em sombra e perfume, nesse instante, toda a minha alma ... E a minha fronde, no ar era um aberto pálio verdejante para te proteger e te salvar ... Mas que bom de velar sobre a fraqueza de alguém que, ingênua e simples, de surpresa, a nós, confiante, e pura, se entregou ... Ah! Nem senti a ventania doida que passou ululando e quase toda minha verde folhagem despencou ... Tasso da Silveira in Poemas

O MISTÉRIO

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Quem sentiu a angústia verdadeira? Quem penetrou o fundo dessa dor? Tomam todos o brilho da lareira pela estrela (tão alta!) do pastor ... Soluçando e cantando é que a alma inteira escondes por orgulho ou por pudor, para guardá-la, assim, da humana poeira, dentro desse mistério redentor! Nunca ninguém te soube ver, disperso no teu canto sentido, a dor que avulta dia a dia ... O secreto, íntimo mal, que é presente e invisível no teu verso, como o perfume de uma flor oculta como Deus na grandeza universal! ... Tasso da Silveira in Poemas

FIO D’ÁGUA

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Fio d’água, humilde e brando, Da transparência dos cristais: Tão claro e límpido vais Cantarolando, Que deixas ver, lá, no fundo, A areia fina alvejando ... Tão diáfano! até parece Que a areia é que vai cantando ... Verso meu, fio d’água oriundo Da fonte da dor ... pudesse (Ai de mim!) Fazer-te tão claro assim, que se visse, lá no fundo, - só – minha alma cantando ou soluçando ... Tasso da Silveira Canções a Curitiba & outros poemas

O LUAR E O CHAFARIZ

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No chafariz o tênue gorgolejo era pura magia. O encantamento enchia a clara noite e, lento, lento, iam surdindo os sonhos, e o Desejo. Mas isto foi no efêmero momento. De há muito a voz calou-se. Agora vejo pedras tombadas, seca a fonte, e o adejo de asas de sombra e de aniquilamento. E o luar, que ao toque mágico da antiga cantiga da água, era também cantiga fluindo, fresca e feliz, do céu profundo, nesta hora triste e trêmula da vida, condensado em lembrança dolorida, é silêncio infinito sobre o mundo. Tasso da Silveira Canções a Curitiba & outros poemas

UM POEMA QUE LI OUTRORA

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A madrugada, fresca e linda, rompendo as trevas, encontrou a Natureza adormecida ainda. Súbito, uma ave, num pipilo límpido e claro, despertou a árvore enorme que lhe dera asilo... E a árvore, comovida, transmitiu à floresta secular o doce frêmito de vida. E floresta levou-o ao céu distante, e o céu mandou-o ao mar... E, assim, no deslumbramento desse instante, toda a Terra, a florir, pôs-se a cantar!... Tasso da Silveira in Poemas

REI DESTRONADO

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Houve um tempo em que o Mar, grandioso e soberano, sobre a terra imperou... Nem valado, nem serra, nem animal, nem flor... Por toda a parte o insano e trágico fragor que o seu rugido encerra. Mas a luta interior, a incandescente guerra, convulsionando o globo – insondável arcano! – numa glória imortal fez exsurgir a Terra, preexcelsa, a dominar sobre a amplidão do oceano!... Hoje procura o Mar, bramindo ansioso e tredo, conquistá-la outra vez... Contra a Terra se lança Mas a Terra lhe opõe o orgulho do rochedo... E, em vagalhões, o abismo, agitado e profundo, ruge de ódio, a lembrar, num clamor de vingança, o áureo tempo em que foi dominador do mundo!... Tasso da Silveira Poemas

LUA...

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Lua! Canção de mágoa, triste endeixa de saudade, no azul do céu perdida... Companheira dos que vão sós na vida, dos que não têm quem lhes escute a queixa... O teu frio palor na alma nos deixa a tristeza profunda e comovida de quando a alguém a eterna despedida vamos levar, e um túmulo se fecha... Errante e só pela infinita altura, há milênios que vens, ó Lua triste, iluminando a humana desventura.. E parece que em ti se congelaram todos os ais de súplica que ouviste e a ânsia dos olhos todos que te olharam... Tasso da Silveira

POEMA

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Das torres de sombra do crepúsculo partem os pássaros. São como setas céleres que vão ferir a nua espádua do dia em fuga, além. Das torres de pedra da urbe oceânica tombam as horas túmidas. São como longas, lentas lágrimas que vão morrer na poeira humílima de um chão de além. Das torres de mágoa da alma trêmula não partem asas fúlgidas nem tombam prantos recônditos. Mas sobe o silêncio trágico para um Além do além. Tasso da Silveira Poemas de Antes – l.966 -

OUTONO

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O outono é pomo... É puro pomo o outono. Pomo de sonho e de recolhimento, pendendo, longe do amargor violento, num perdido pomar de sombra e sono. Há o vento, é certo, o lamentoso vento, uivando, uivando como cão sem dono. E a tristeza passando a passo lento na alameda... E as lembranças. E o abandono. Mas há também, no outono, essa doçura, essa total renúncia de oferenda, esse eterno alheiamento à dor e ao mal, que faz do pomo uma presença pura da bondade de Deus na ânsia tremenda, no degredo da angústia universal. Tasso da Silveira Poemas de Antes – l.966 –

TREVA...

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Acende a lanterna da Tua graça na floresta funda para que eu ache o caminho da Tua casa perdida entre penumbras tão distantes... Acende a lanterna da Tua graça, por que não há trilhos mais ásperos nem mais secretos precipícios do que os da floresta funda. Nem distâncias que se prolonguem tão desesperantemente, nem medo tão longo de ficar-se perdido para sempre... Acende a lanterna da Tua graça, porque para os meus olhos se apagaram todas as paisagens lúcidas. Porque a minha treva transbordou de dentro de mim mesmo sobre as coisas do mundo..." Tasso da Silveira

ENCANTAMENTO

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A tarde jogou os seus sete véus luminosos sobre a montanha, e ficou toda nua dançando com sombras de crepúsculo a escorrerem-lhe, suaves, pela pele dourada... ...e ficou toda nua dançando na campina ao som da harpa encantada do silêncio... Tasso da Silveira In As Imagens Acesas, Poemas

A CANOA

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Rompida de brechas, carcomida por anos sem conta de luta no mar, a velha canoa dos pescadores foi arrastada para a planície, foi exilada em terra firme, longe do mar. Mas veio o crepúsculo, e pôs distâncias no horizonte. E a planície fremiu ansiadamente ... ... como se tivesse vontade de ser água para a canoa navegar ... Tasso da Silveira in Poemas

NOTURNO

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Veleiro ao cais amarrado em vago balouço, dorme? Não dorme. Sonha, acordado, que vai pelo mar enorme, pelo mar ilimitado. Se acaso me objetardes que veleiro não é gente e, assim, não sonha nem sente, sem orgulhos nem alardes eu direi: por que haveria de falar-vos do homem triste mas de olhar grave e profundo que, à amargura acorrentado sonha, no entanto, que vive toda a beleza do mundo? Melhor é dizer: Veleiro... veleiro ao cais amarrado, sob as límpidas estrelas. Vela branca é uma alma trêmula, sobretudo se cai sombra do alto abismo constelado. Veleiro, sim, que não dorme mas na silente penumbra sonha, ao balouço, acordado que vai pelo mar enorme, pelo mar ilimitado. Tasso da Silveira In Tasso da Silveira - Poemas